sábado, 28 de novembro de 2015

Depoimento do professor Vader Pomar, do diretório nacional do PT, filiado desde os anos 80, que vem pra confirmar a tese deste blogue sobre o apodrecimento porque passa o partido em virtude das correntes majoritárias que hoje o assumem.

VP é da corrente ARTICULAÇÃO DE ESQUERDA, contrária às correntes majoritárias.

Segue os trechos mais importantes (grifos do Vader):

O Senado Federal decidiu, em votação realizada depois da prisão, validar a prisão. A maior parte da bancada do PT votou contra, argumentando que não estaria sendo respeitado aquilo que a Constituição prevê como condição para a prisão de um mandatário popular.
Não se trata de um tema simples, envolvendo desde interpretações da Constituição até a análise do significado político da prisão do líder do governo Dilma no Senado Federal.
Isto posto e por isto mesmo, somos de opinião que a maioria da bancada do PT no Senado Federal errou. Ao Partido dos Trabalhadores e ao Governo Dilma interessa separar o joio do trigo. E o fato é que o Senador Delcídio Amaral traiu a confiança do governo, traiu a confiança do PT, traiu a confiança do eleitorado popular.
É verdade que o STF aplica, contra petistas e filiados ao PT, um rigor que não adota quando se trata de filiados a partidos de centro-direita. Exemplo disto é o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB), que até este momento segue solto. Entretanto, não é de esquerda a tese segundo a qual enquanto não restaura-se a moralidade, locupletar-se é permitido.
Está provado que o Senador usava o cargo para tentar cometer um crime, em benefício próprio e em prejuízo dos interesses do Brasil, do governo e do próprio PT, que seriam inevitavelmente acusados de estarem por trás da eventual fuga do criminoso que Delcídio Amaral queria impedir de colaborar com a Justiça.
Por tudo isto, a bancada do PT no Senado deveria ter votado a favor de chancelar a prisão preventiva determinada pelo STF. (…)
O presidente nacional do PT, companheiro Rui Falcão, divulgou uma nota na qual declara perplexidade com a atitude do Senador. Apoiamos o presidente do Partido em sua atitude de não prestar solidariedade a Delcídio Amaral, mas não compartilhamos de sua perplexidade.
Registre-se que quando Delcídio Amaral pediu filiação ao PT, nós da tendência petista Articulação de Esquerda recorremos contra no seu diretório municipal. Derrotados, impugnamos a filiação no Diretório estadual do PT-MS. Derrotados, questionamos a filiação junto ao Diretório Nacional. Nós sabíamos quem ele era, acompanhamos sua trajetória pública desde então e por isto não estamos perplexos.
Não é necessário lembrar agora quem patrocinou, apoiou, deu os votos necessários ou simplesmente lavou as mãos, permitindo por ação ou omissão a filiação de Delcídio Amaral.
(…)
O caso de Delcídio Amaral, assim como os de André Vargas e Candido Vaccarezza, são sintomáticos da falta de critério, da falta de vigilância, da falta de limites, do oportunismo e do pragmatismo que predominam em certos setores do Partido.
Se quiser sobreviver ao cerco da direita, o PT não precisa apenas mudar de política, precisa também mudar de comportamento. O que significa, em casos como este, que precisamos depurar. Por tudo isto, o PT deve expulsar Delcídio Amaral.



O ovo da serpente

Eduardo Cunha, o ainda presidente da Câmara, deixou de ser o homem mais importante da república.

Fracassou em seu projeto para a Presidência do Brasil.

Transformou-se no repulsivo e inerme "morto que anda" t
ão vertiginosa e
inesperadamente quanto ascendeu, e agora decompõe-se a cada passo pelas galerias do Congresso Nacional.

Todavia, embora sua força política se tenha esvaído, permanece ainda o nefasto poder simbólico da sua trajetória e do seu exemplo.

Eduardo Cunha botou um ovo, o ovo da serpente.

Estava assistindo ontem à discussão do deputado Jean Wyllys (PSOL) com o colega João Rodrigues (PSD); sim, sei que já faz um tempinho, mas o fato é que o vídeo me chamou muito a atenção.







Não pela contenda em si, mas pelo que dela se pode subentender, pelas "entrelinhas" que apresenta.

Jean, independentemente das vinculações ideológico-partidárias, é um político respeitável do ponto de vista da trajetória. Não se conhece dele envolvimento em casos de corrupção.

Recentemente recebeu o prêmio Congresso em Foco de 2015 como o melhor deputado.

Para provar a idoneidade do prêmio, Ronaldo Caiado, pelo DEM, também o recebeu como melhor senador, demonstrando o não-alinhamento ideológico da homenagem.

Em suma, Jean Wyllys não é um pé-de-chinelo.

Do outro lado temos João Rodrigues. João, como representante do baixo clero, era até pouco tempo um completo desconhecido.


Sua última aparição na mídia foi por ter sido flagrado assistindo a videos pornô em sessão plenária, como nos lembrou Jean Wyllys naquela oportunidade.

Embora tentasse desqualificar a trajetória de Jean, colocando-o como reles "ex-BBB" que surfou na onda do programa, não foi João quem recebeu o prêmio Congresso em Foco de 2015.

Além disso, diferentemente de Jean, o nome de João aparece em denúncias de corrupção movidas pelo Ministério Público.

Qual, então, o motivo da relevância do vídeo?

As circunstâncias.


Políticos como João Rodrigues, denunciados e investigados, sempre se valeram das sombras para tocar seus negócios. 

Eleito com uma campanha milionária financiada por ruralistas do oeste catarinense advogava por seus interesses na mais completa nulidade.

Ocorre que, subitamente, o homem que preferia a escuridão e a desatenção propícias ao seu ganho levanta-se até ao plenário, ataca alguém com certa publicidade e chama para si todos os holofotes.

Que circunstâncias o levaram a isso?


Qualquer semelhança com Eduardo Cunha não é mera coincidência.


O ovo de Cunha foi posto e está sendo chocado.

O Congresso, que se encontra em alarmante estado de retrocesso, volta sua vontade para o financiamento empresarial, grande responsável pela parcela da corrupção que se desenvolve lá.


Eduardo Cunha permitiu, dando o exemplo, que os ratos saíssem dos bueiros.


Permitiu que João Rodrigues, suficientemente seguro, encarasse os holofotes da imprensa.

Passado isso, Jean Wyllys responde às representações para sua cassação no Conselho de Ética movidas pelo PSD de João Rodrigues.

João, ao que se sabe, não recuou em suas pretensões holofotísticas.


Resta agora uma terrível 
incerteza.

Até que ponto do ovo de Cunha, quando eclodido, sairão novos anões do orçamento, sanguessugas da saúde, dossiês secretos, mensalões etc?



Será um dia triste se o país regredir, após a passagem tenebrosa de Eduardo Cunha, aos trovejosos tempos de ACM, Jader Barbalho e José Sarney. 

Criminosos que não temiam os holofotes.

Tempos que se deseja apagar mas que parecem, nesse instante, nos bater à porta.


Queria é não poder atender.



quarta-feira, 25 de novembro de 2015


Atos, não palavras





Foi votada ontem a permanência da prisão preventiva decretada pelo Supremo do Senador da República Delcídio do Amaral, o Zacarias do PT.

[fato inédito desde a redemocratização, e não, ele não é o Zacarias]

59 a 13, um banho.

Delcídio é apenas mais um sintoma (e outros aparecerão) do apodrecimento porque passa o PT atualmente. O partido vive sua crônica da morte anunciada, um fenômeno de autodecomposição gradual.

Houve tempos, e os leitores mais jovens poderão se assustar, em que ser petista, filiado ou não, era motivo de orgulho. Os filiados exibiam radiantes suas carteirinhas, era o famoso "petista de carteirinha".

Se você hoje ouve a palavra petista, em qualquer esquina do país, pode ter certeza de que foi um xingamento.

Mas não sejamos ingênuos, isso se explica também por forças de desgaste externas ao partido (mídia, grupos reacionários implantados no judiciário e na Polícia Federal, determinados nichos do empresariado etc); o que não nos desobriga, absolutamente, a entender o término do ciclo petista como culpa, preeminentemente, de seus atos.

Lembro-me da fala do Senador Roberto Requião (PMDB), reveladora no que diz duma conversa privada que teve com José Dirceu, expressão importante do Estado à época. Sugeria ao petista a criação de uma TV estatal vigorosa, para asseverar a comunicação e rebater os ataques enviesados da mídia hegemônica.

Dirceu respondeu que já tinham uma, a Globo.

Se foi ingenuidade, erro de cálculo ou presunção, não importa, o fato é que o PT errou, e por suas próprias patas.

Delcídio, agora preso, tem contra si gravações, testemunhas, transcrições, e materiais apreendidos em sua residência e no gabinete do Congresso pela PF.

A tentativa de comprar o silêncio de um delator, a sugestão à execução da fuga deste, a suposta influência (própria e de terceiros) sobre o STF com intenção de obstruir, além do penteado de ninho de galinha caipira que ostenta, pesam-lhe violentamente.

Todavia, meus caros, percebam, não é isso que atesta o diagnóstico.

O sinal maior da doença degenerativa está, precisamente, na votação aberta terminada em 13 votos contrários à permanência de Delcídio na prisão.

Dos 13 votos, 9 foram petistas. Dos 12 senadores que a bancada possui no senado, apenas dois desacordaram.

Esses dois foram Paulo Paim e Walter Pinheiro, que sabidamente flertam com a dissidência, o primeiro manifestando interesse pela REDE.

Excetuando-se os dois senadores, bem como o voto de uma senadora ausente, toda a bancada votou pela liberdade do senador Delcídio do Amaral.

Mesmo com as provas, os pareceres da Procuradoria Geral da República, além dos votos dos ministros do Supremo que acataram a prisão do senador em unanimidade, à disposição desses senadores.

Concluo expondo-lhes em toda a sua malconformidade, feiúra e deformação o apodrecimento de um partido que portou, um dia, a tocha da esperança, e a trocou pelo incêndio do poder.

Que nisso existam coadjuvantes, todos sabemos, mas a apoptose começa por dentro.

Pelo dedo que se conhece o gigante

(texto inaugural)



A incisão será na altura do ventre, em "v"; o instrumento perfurocortante deverá ser agudo como a inteligência do (ex) ministro. Se tudo fluir bem, extirpar-se-ão os intestinos de Joaquim Benedito Barbosa, JB daqui pra frente, ontem potestade da justiça, hoje vulgar vítima deste blog.

[quem tiver estômago fraco ou problemas cardiovasculares, por favor, pare agora]

Lembremos, primeiramente, quando JB cabia na fama.

Fisgado imediatamente pelo louro anzol da mídia, Joaquim foi posto a mesa no cúmulo da soberba e da vaidade, sem reservas.

Incensado pelas palavras do âncora da mecha branca, regozijava-se no apartamento cujos banheiros (quatro deles) viriam a ser reformados em grande estilo, totalizando exorbitantes 90 mil reais e à justa feição de seu possuidor.

Era ele então requerido nos veículos de comunicação mais prestigiados [leia-se globo, principalmente], nos círculos políticos oposicionistas mais poderosos [leia-se PSDB, principalmente], nos debates públicos mais importantes.

Trajava a toga como o super-herói põe a capa. Feliz do povo que não tem heróis. Nós tínhamos Joaquim Barbosa.

[a revista VEJA chegou a compará-lo a Bruce Wayne]

Desimportam, entretanto, esses momentos na nossa delicada operação. Interessa sobretudo o que JB fez longe dos holofotes, ou quando julgou que deles assim se encontrasse, porque aí reside sua herança maldita.

JB é um narciso, um vaidoso, e devemos nos perguntar em que medida isso é saudável para a justiça brasileira, seus representantes e as instituições.

Sabemos muito bem da promiscuidade histórica entre os poderes no Brasil, que permite despudoradamente a transformação grotesca de juízes em cabos eleitorais ou em candidatos a cargos públicos.

[
JB foi cotado como vice de Aécio, como presidenciável e como cabo eleitoral] 

Sabemos igualmente que tais figuras, ao se postarem descaradamente com seus amigos e contra seus inimigos, sentenciam a sagrada imparcialidade aos domínios do microbiano.

[JB foi fotografado no camarote de Luciano Huck, empregado da mesma empresa que lhe prestou tributos de herói brasileiro, entre eles a contratação do filho deste herói numa clara mostra de inocentes carinho e consideração; JB também foi fotografado num evento do qual participava Aécio Neves e Antônio Anastasia, ambos do PSDB, recebendo outra egocêntrica condecoração]

Esse é o legado do ex-presidente do STF. Aviventar não os indivíduos-juízes desse tipo, que desejamos mortos, enterrados e devidamente sentenciados à perpétua irrevogável, mas a mentalidade provinciana de uma justiça chicaneira e partidarizada (e sem vergonha de assim o ser).

JB faz parte da turma que fecha as pálpebras à sonegação dos amigos em troca de auspiciosos presentes, como plateias fugazes de midiotizados, sedentos, outrora, pelo justiceiro impávido, mas hoje inexistentes e volatilizadas.

O ministro trouxe à vida aquilo que há de mais hediondo no nosso judiciário, incorporado a sua própria imagem e ao seu estilo.

Não vou entrar nos méritos da ação penal 470, nem sequer fazer ecos à defesa de réus que julgo realmente culpados, embora indevidamente; mas é pertinente lembrar que a presunção da inocência foi escalpelada pela presunção do ministro, além de a dosimetria e do método utilizados: a teoria do domínio do fato, terem sido uma piada.

[recordar é viver, momentos que não voltam mais: fala da ministra Rosa Weber na ação penal 470, a quem duvide basta consultar os anais do STF, "não tenho prova cabal contra Dirceu - mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite"]

Nosso justiceiro saiu do Supremo dando a ele enorme visibilidade. Hoje ministra conferências e palestras, muitas delas no exterior, e não se sabe de suas preferências políticas.

Deixou-nos a importantíssima lição de que a um homem não se conhece pelos gestos feitos na frente das câmeras, mas pelos gestos pequenos, nos quais se imagina nenhuma visibilidade e nem se pretende a notícia.

É por gestos tais que se conhece a grandeza de um homem, é pelo dedo que se conhece o gigante.

JB apequenou-se diante da história. Embora tenha dado estatura pública [mas não moral] ao STF, saiu muito menor do que quando entrou.

É chegado o momento da incisão, JB está nervoso e se debate. Mãos precisas e firmes. Assim. O corte é proferido habilmente. As vísceras agora balançam expostas. O ministro grita muitíssimo, e sua. Do compacto abdome, escuro, se vê as róseas e lustrosas dobras intestinais; em uma das alças há pendurado um fruto.

Aproximo-me, observo cauteloso, é um fruto de complexa configuração. Apanho-o da alça e descasco-o com o perfurocortante. Há algo no interior, alguma coisa escrita, um nome, talvez. Aperto os olhos míopes para poder enxergar:

"Juiz Sérgio Moro".

[fecham-se as cortinas e nenhum aplauso]

A operação foi um sucesso.