quarta-feira, 2 de dezembro de 2015



Considerações sobre o dia de hoje

Estão em dores de parto as montanhas e nascerá um mísero rato - Horácio





Faltavam três votos, petistas, para decidir a continuidade do processo de cassação de Eduardo Cunha no Conselho de Ética.

O presidente do PT disse: "votem pela admissibilidade"

Li abstraidamente algumas coisas sobre o assunto e duas colunas me laçaram as retinas.  


"Tudo a Perder", de Alex Solnik e "PT, Cunha e Churchill", de Breno Altman.


A primeira, citando Maquiavel, pregava que os petistas deveriam evitar a guerra contra Cunha em prol de uma duvidosa estabilidade política; que, além disso, a cassação seria inevitável e postergá-la agora não ia mal.


Terminou risível dizendo que "quem julga são os juízes".


A segunda, mais lúcida, dizia da imensa responsabilidade histórica do partido em votar pela cassação ou não de Eduardo Cunha.


Para situar o leitor dessa responsabilidade, citou Winston Churchill, colocando devidamente o momento histórico e a quem Chuchill se dirigia quando disse o que disse. 


Reproduzo o parágrafo: "O ex-primeiro ministro inglês se referia, com estas palavras, à decisão de seu antecessor, Neville Chamberlain, aliado ao governo francês, que optou por entregar os sudetos tchecos a Hitler, em 1938, no Pacto de Munique, apostando que iria pacificá-lo e evitar o confronto."

A citação era a seguinte: "entre a desonra e a guerra, eles escolheram a desonra, e terão a guerra."

Pois bem, foi votada favoravelmente a cassação e os petistas tiveram, graças a Deus, dessa vez, noção do momento histórico.

[lembrando que este blog vem, desde seu primórdio, criticando justamente essa ausência de criticismo do PT em relação ao jogo político, como quem joga por jogar e para vencer, apenas]


Nesta quarta-feira, Eduardo Cunha, o "corpo que anda", respondeu dando início aos trabalhos de impeachment, aquele montado por Hélio Bicudo.

Que o Parlamento vive um retrocesso e que a oposição tem seu cômico momento de protagonismo, não há dúvidas, mas embora não possam parecer, as notícias são, de fato, alvissareiras.

Uso o adjetivo um tanto anacrônico porque o país tem dessa maneira a oportunidade de provar que não somos e não podemos ser uma República de Bananas.

Dilma não é a melhor negociante que já coube na Presidência, há inequívocos problemas nos seus dois governos, mais no que se inicia do que no passado, inclusive.

Mas não é uma pessoa que cometeu crime de responsabilidade.

Contra Dilma pesam acusações enviesadas de um jurista rancoroso, pouco comprometido com o jogo democrático.

Qualquer jurista com o mínimo de consciência pública sabe da dificuldade do processo de impeachment para as instituições, ainda mais as brasileiras, fragilizadas e muitas delas bem recentes.

Para não ficarmos apenas no truísmo, cito o Supremo Tribunal Federal que, até bem pouco tempo e antes da presidência do Joaquim Barbosa, era quase que desconhecido dos brasileiros médios.

Tornar a presidência um jogo em que é possível vencer no tapetão, no qual se tira o vencedor eleito pelas regras acordadas com uma nova regra, criada já no correr da partida, é lamentável, quanto mais sendo feito por alguém como Cunha.

Apequenou sua putrefata trajetória seus atos dos últimos dias.

Mas o fato é que a política no Brasil vem há muito sendo atacada por pessoas assim, de fracos valores democráticos.

Aécio, o presidenciável, desconstruiu na última eleição e em sua campanha pelo "terceiro turno" muitos dos valores democráticos que a duras penas andamos conquistando, incutindo na cabeça de seus eleitores, também os de tabela e os desavisados, que o golpe era legítimo, saudável.

O último e único impeachment vivenciado no Brasil, que apeou Fernando Collor da presidência, foi, após muito tempo e depois das acusações sumárias da Rede Globo, outra entidade que pouco zela pela democracia, reconhecido postumamente por decisão do Supremo como improcedente por falta de provas.

Sim, Collor foi absolvido.

Vendo o Jornal Nacional de hoje, apresentado na figura de Heraldo, enxerguei curiosamente não sua face mas uma outra, dissimulada, supra posta e oculta.

Uma máscara desfigurada formada por muitos rostos e ao mesmo tempo um só semblante.

Entrevi o "esgar reptiliano" de Eduardo Cunha, os bigodes brancos do fundador Marinho, os olhos desabitados de Aécio Neves, os Generais Presidentes, seus quepes, seus óculos escuros, a oposição; esses e muitos outros rostos que se diversificavam e se substituíam.

Por um segundo meu estômago tremeu, enquanto isso, na tela, já passava o pronunciamento da Presidência.

Era fome.

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