O ovo da serpente
Eduardo Cunha, o ainda presidente da Câmara, deixou de ser o homem mais importante da república.
Fracassou em seu projeto para a Presidência do Brasil.
Transformou-se no repulsivo e inerme "morto que anda" tão vertiginosa e
Eduardo Cunha botou um ovo, o ovo da serpente.
Estava assistindo ontem à discussão do deputado Jean Wyllys (PSOL) com o colega João Rodrigues (PSD); sim, sei que já faz um tempinho, mas o fato é que o vídeo me chamou muito a atenção.
Não pela contenda em si, mas pelo que dela se pode subentender, pelas "entrelinhas" que apresenta.
Jean, independentemente das vinculações ideológico-partidárias, é um político respeitável do ponto de vista da trajetória. Não se conhece dele envolvimento em casos de corrupção.
Recentemente recebeu o prêmio Congresso em Foco de 2015 como o melhor deputado.
Para provar a idoneidade do prêmio, Ronaldo Caiado, pelo DEM, também o recebeu como melhor senador, demonstrando o não-alinhamento ideológico da homenagem.
Em suma, Jean Wyllys não é um pé-de-chinelo.
Do outro lado temos João Rodrigues. João, como representante do baixo clero, era até pouco tempo um completo desconhecido.
Sua última aparição na mídia foi por ter sido flagrado assistindo a videos pornô em sessão plenária, como nos lembrou Jean Wyllys naquela oportunidade.
Embora tentasse desqualificar a trajetória de Jean, colocando-o como reles "ex-BBB" que surfou na onda do programa, não foi João quem recebeu o prêmio Congresso em Foco de 2015.
Além disso, diferentemente de Jean, o nome de João aparece em denúncias de corrupção movidas pelo Ministério Público.
Qual, então, o motivo da relevância do vídeo?
As circunstâncias.
Políticos como João Rodrigues, denunciados e investigados, sempre se valeram das sombras para tocar seus negócios.
Eleito com uma campanha milionária financiada por ruralistas do oeste catarinense advogava por seus interesses na mais completa nulidade.
Ocorre que, subitamente, o homem que preferia a escuridão e a desatenção propícias ao seu ganho levanta-se até ao plenário, ataca alguém com certa publicidade e chama para si todos os holofotes.
Que circunstâncias o levaram a isso?
Qualquer semelhança com Eduardo Cunha não é mera coincidência.
O ovo de Cunha foi posto e está sendo chocado.
O Congresso, que se encontra em alarmante estado de retrocesso, volta sua vontade para o financiamento empresarial, grande responsável pela parcela da corrupção que se desenvolve lá.
Eduardo Cunha permitiu, dando o exemplo, que os ratos saíssem dos bueiros.
Permitiu que João Rodrigues, suficientemente seguro, encarasse os holofotes da imprensa.
Passado isso, Jean Wyllys responde às representações para sua cassação no Conselho de Ética movidas pelo PSD de João Rodrigues.
João, ao que se sabe, não recuou em suas pretensões holofotísticas.
Resta agora uma terrível incerteza.
Até que ponto do ovo de Cunha, quando eclodido, sairão novos anões do orçamento, sanguessugas da saúde, dossiês secretos, mensalões etc?
Será um dia triste se o país regredir, após a passagem tenebrosa de Eduardo Cunha, aos trovejosos tempos de ACM, Jader Barbalho e José Sarney.
Criminosos que não temiam os holofotes.
Tempos que se deseja apagar mas que parecem, nesse instante, nos bater à porta.
Queria é não poder atender.


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