Pelo dedo que se conhece o gigante
(texto inaugural)
[quem tiver estômago fraco ou problemas cardiovasculares, por favor, pare agora]
Lembremos, primeiramente, quando JB cabia na fama.
Fisgado imediatamente pelo louro anzol da mídia, Joaquim foi posto a mesa no cúmulo da soberba e da vaidade, sem reservas.
Incensado pelas palavras do âncora da mecha branca, regozijava-se no apartamento cujos banheiros (quatro deles) viriam a ser reformados em grande estilo, totalizando exorbitantes 90 mil reais e à justa feição de seu possuidor.
Era ele então requerido nos veículos de comunicação mais prestigiados [leia-se globo, principalmente], nos círculos políticos oposicionistas mais poderosos [leia-se PSDB, principalmente], nos debates públicos mais importantes.
Trajava a toga como o super-herói põe a capa. Feliz do povo que não tem heróis. Nós tínhamos Joaquim Barbosa.
[a revista VEJA chegou a compará-lo a Bruce Wayne]
Desimportam, entretanto, esses momentos na nossa delicada operação. Interessa sobretudo o que JB fez longe dos holofotes, ou quando julgou que deles assim se encontrasse, porque aí reside sua herança maldita.
JB é um narciso, um vaidoso, e devemos nos perguntar em que medida isso é saudável para a justiça brasileira, seus representantes e as instituições.
Sabemos muito bem da promiscuidade histórica entre os poderes no Brasil, que permite despudoradamente a transformação grotesca de juízes em cabos eleitorais ou em candidatos a cargos públicos.
[JB foi cotado como vice de Aécio, como presidenciável e como cabo eleitoral]
Sabemos igualmente que tais figuras, ao se postarem descaradamente com seus amigos e contra seus inimigos, sentenciam a sagrada imparcialidade aos domínios do microbiano.
[JB foi fotografado no camarote de Luciano Huck, empregado da mesma empresa que lhe prestou tributos de herói brasileiro, entre eles a contratação do filho deste herói numa clara mostra de inocentes carinho e consideração; JB também foi fotografado num evento do qual participava Aécio Neves e Antônio Anastasia, ambos do PSDB, recebendo outra egocêntrica condecoração]
Esse é o legado do ex-presidente do STF. Aviventar não os indivíduos-juízes desse tipo, que desejamos mortos, enterrados e devidamente sentenciados à perpétua irrevogável, mas a mentalidade provinciana de uma justiça chicaneira e partidarizada (e sem vergonha de assim o ser).
JB faz parte da turma que fecha as pálpebras à sonegação dos amigos em troca de auspiciosos presentes, como plateias fugazes de midiotizados, sedentos, outrora, pelo justiceiro impávido, mas hoje inexistentes e volatilizadas.
O ministro trouxe à vida aquilo que há de mais hediondo no nosso judiciário, incorporado a sua própria imagem e ao seu estilo.
Não vou entrar nos méritos da ação penal 470, nem sequer fazer ecos à defesa de réus que julgo realmente culpados, embora indevidamente; mas é pertinente lembrar que a presunção da inocência foi escalpelada pela presunção do ministro, além de a dosimetria e do método utilizados: a teoria do domínio do fato, terem sido uma piada.
[recordar é viver, momentos que não voltam mais: fala da ministra Rosa Weber na ação penal 470, a quem duvide basta consultar os anais do STF, "não tenho prova cabal contra Dirceu - mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite"]
Nosso justiceiro saiu do Supremo dando a ele enorme visibilidade. Hoje ministra conferências e palestras, muitas delas no exterior, e não se sabe de suas preferências políticas.
Deixou-nos a importantíssima lição de que a um homem não se conhece pelos gestos feitos na frente das câmeras, mas pelos gestos pequenos, nos quais se imagina nenhuma visibilidade e nem se pretende a notícia.
É por gestos tais que se conhece a grandeza de um homem, é pelo dedo que se conhece o gigante.
JB apequenou-se diante da história. Embora tenha dado estatura pública [mas não moral] ao STF, saiu muito menor do que quando entrou.
É chegado o momento da incisão, JB está nervoso e se debate. Mãos precisas e firmes. Assim. O corte é proferido habilmente. As vísceras agora balançam expostas. O ministro grita muitíssimo, e sua. Do compacto abdome, escuro, se vê as róseas e lustrosas dobras intestinais; em uma das alças há pendurado um fruto.
Aproximo-me, observo cauteloso, é um fruto de complexa configuração. Apanho-o da alça e descasco-o com o perfurocortante. Há algo no interior, alguma coisa escrita, um nome, talvez. Aperto os olhos míopes para poder enxergar:
"Juiz Sérgio Moro".
[fecham-se as cortinas e nenhum aplauso]
A operação foi um sucesso.

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