O impeachment é um remédio amargo, e não se toma remédios amargos sem estar doente.
Dilma I, sob muitos aspectos, é indefensável. Pelos ministérios do Dilma II, sobretudo os da Fazenda, Agricultura e Educação, podemos prever que esse governo também será.
Mas não é disso que se trata quando cuidamos do impeachment.
Precisamos aprender (e entender) que no regime democrático ganha a maioria.
Criar subterfúgios legais duvidosos para aprovar o golpe de um presidente eleito porque não se aceita o resultado das urnas, num regime democrático, é sintoma da nossa curta e turbulenta experiência democrática.
Aécio, neto de um homem que defendeu notadamente a democracia e seus preceitos na época da Redemocratização, deveria saber disso.
A democracia é o regime do diálogo, do entendimento, do debate das ideias.
Manter Dilma no cargo é mais que assegurar a continuidade desse sistema, é uma lição necessária de aprendizado.
Se o país votou mal ou bem, vá lá cada um com sua opinião, mas não dá para revogar 54 milhões de votos com argumentos inventados e ressentidos.
Não devemos, absolutamente, aceitar, por razões republicanas, o que está sendo urdido em muitos dos gabinetes do país, inclusive no da vice-presidência.
O Brasil de hoje não é o mesmo da Ditadura de 64 ou do governo Collor. A internet propiciou uma revolução em termos de informação e mobilização, mais notadamente nas gerações mais jovens.
Os protestos bem sucedidos dos estudantes paulistas contra a "reorganização" da escola pública no estado, promovida pelo governo Alckmin, confirmam isso.
Não há quórum para o impeachment, portanto não há clima político ou social que o embasem. Mesmo que houvesse, o STF, que é bem diferente do de quando Collor caiu, não permitiria, e menos ainda os eleitores nas ruas.
O PT tem a oportunidade de, depois do inexorável desgaste do Poder, catalizado pela ação midiática, reagir, de ressurgir da lama.
A militância está disposta, mais uma vez, a defender o governo; tomou fôlego quando a asfixia parecia irreversível. Juristas e personalidades do Direito isentos se colocaram contra os argumentos do impeachment. Governadores dos estados do Nordeste, cientes de que é um golpe, também se manifestaram negativamente.
Embora Eduardo Cunha o tenha aprovado pensando em sua sobrevivência, mais uma vez, calculou mal, muito mal. O impeachment não atingirá as finalidades daqueles que o conspiram, sairá completamente pela culatra.
O PT, que já perdeu há muito a ingenuidade, deverá aproveitar o momento para filtrar sua trajetória, assumir os erros e se propor como ator político capaz, ainda mais depois da sôfrega vitória.
Que seja aplicado o ensinamento trazido pela conjuntura.
Mormente em relação ao próprio PT e seus dirigentes, porque a quem erra, perdoa-lhe uma vez, mas não três.

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