Acabo de terminar Incidente em Antares, do Erico Verissimo.
O livro faz parte do Ciclo Político do autor, que foi seu último.
Nessa obra ele lança mão de uma linguagem mais leve e muitas vezes irônica para relatar um curioso incidente numa cidadezinha da fronteira do sul do Brasil, Antares.
Parte I:
Aqui há a criação de Antares pelo conflito dialético entre duas famílias dominantes, os Campolargo e os Vacariano.
Há, em dado momento, a engraçada reconciliação dos clãs rivais, e para isso o autor revive Getúlio Vargas, que habilmente efetiva a improvável aliança em nome dos "novos tempos".
Essa parte é toda estruturada em trechos que evidenciam a podridão dos valores morais sob os quais a cidade foi fundada.
Ao fim da primeira parte já tomamos ciência dos feitos de cada clã, de suas deformações de caráter, bem como do temperamento de cada personagem, que darão continuidade à segunda parte.
Entre esses personagens estão o prefeito corrupto, o coronel violento (um Vacariano), o pároco condescendente, a matrona dos Campolargo, o juiz ambicioso e enfadonho, o professor intelecualóide, o promotor público efeminado, o dono do jornal que não assume partido, entre outros.
Parte II:
É 11 de Setembro de 1963, véspera da Ditadura Civil-Militar e tempo de instabilidade social e política. Há uma greve geral em Antares, tão geral que mobiliza até os coveiros da cidade.
Ocorre nesse período a morte de 7 indivíduos, o advogado Cícero Branco, a matriarca Quitéria Campolargo, o músico fracassado Menandro de Olinda (que se suicidou), o bebum da cidade Pudim de Cachaça, a prostituta Erotildes (nome bem sugestivo), o sapateiro Barcelona e João Paz, jovem morto sob condições curiosas.
Os coveiros, aderidos à greve, juntam-se à barreira humana que impede a entrada dos mortos ao cemitério.
O grandiloquente funeral de Quitéria Campolargo é impedido de continuar.
Insultados, os grupos dominantes (dos quais Quitéria fazia parte), partem em retirada, e na porta, entre outros 6 caixões, deixam o de dona Quitéria, para evitar o conflito com os grevistas.
Naquela noite um fenômeno curioso ocorre: os mortos, que repousavam no sono eterno, despertam.
Ao perceberem que não foram enterrados, que não estão no céu ou no inferno, decidem, com a liderança de Cícero Branco, invadir o coreto da praça mais importante da cidade, e lá apodrecer até que suas reivindicações (ser enterrado devidamente) sejam atendidas.
Minhas impressões do livro são as melhores. A imagem dos defuntos podres se indignando e, infestados de moscas, seguidos por ratos e urubus, apontando aos vivos seus desvios morais, suas hipocrisias, suas mentiras, ou seja, sua podridão tão maior ou igual a dos mortos, em plena praça pública, é simplesmente genial.
O livro bebe do Realismo Mágico, de Gabriel Gárcia Márquez, pouco exercido no Brasil.
A praça pública é, desde Atenas, o lugar de apresentar verdades, de debater, e esse é o ambiente onde os mortos acusarão os vivos.
Esses mortos, antes de se dirigirem ao coreto da praça, resolvem revisitar seus vivos, e se chocam com o que esses promovem, preocupando-se mais com coisas materiais do que com os seres humanos que acabaram de morrer.
A passagem em que dona Quitéria observa melancolicamente a briga dos genros e filhas pela partilha de suas jóias, jóias que seriam enterradas com ela e que ela supunha roubadas por ladrões de túmulo, é fenomenal.
A passagem de Cícero visitando a esposa que se descobre na cama, ainda quente do corpo do advogado, com um rapaz muito mais jovem que ela, também é muito interessante.
É um livro muito vívido, mesmos com os defuntos.
Mas de tudo, da temática, dos mortos-vivos, da sociedade corrupta, dos moralistas de plantão etc, o que mais me atordoou foi o final.
O livro é todo construído com uma pegada de humor, de ironia, de criticismo, que provoca o riso ou pelo menos o sorriso.
O final é diferente, pesado, triste.
Uma criança lê na parede o que se diz ser um palavrão pichado por um jovem subversivo assassinado pela polícia naquela madrugada, em virtude da pichação.
Uma poça de sangue marca o local do crime.
A criança anda com o pai apressadamente, seguindo para a escola, enquanto funcionários públicos tentam limpar o "palavrão" escrito.
A criança tenta ler o palavrão: "Li-ber..."
O pai visivelmente em pânico arrasta a criança rua adentro, impedindo-a de continuar.
Era o início da Ditadura Civil-Militar no Brasil.






